Diretrizes Éticas
Em sua essência, a psicanálise é a prática clínica da escuta do mal-estar social que cada indivíduo, independentemente do gênero com que se identifica, traz em sua queixa, em sua angústia, em sua dor psíquica. Nossa trajetória de psicanalistas, desde o começo de nossas formações, e especialmente no exercício da clínica, nos confronta com o mal-estar da cultura no momento histórico em que estamos inscritas.
Um dos grandes marcadores da intensidade do mal-estar de uma sociedade é o lugar que nessa mesma sociedade está designado às mulheres. Com efeito, o feminino parece ser, em nossa sociedade contemporânea, o catalisador do mal-estar social, uma vez que é recusado de maneira exacerbada, e sabemos que o preço que as mulheres pagam por tal recusa tem sido cada vez maior. Em uma sociedade regulada por valores capitalistas, imperialistas e colonialistas, é a cultura do “ter para ser” que prevalece, as mulheres sendo as que denunciam a impostura desta formulação que o neoliberalismo, forma extrema do capitalismo, implantou. Assim, o patriarcado, que é o corolário dos elementos da cultura neoliberal, se empenha em cultivar o que chamamos de espiral da violência. Nessa espiral, encontram-se a violência de gênero, a violência racial, a violência social, a violência de classe e a violência de Estado, todas derivadas do fato que não há capitalismo sem cultura colonialista, e logo, patriarcal e misógina. Como resultante, deparamo-nos com o fato de a violência contra as mulheres ser uma realidade crescente e assustadora.
Essa alarmante realidade está incluída em nossa escolha por pesquisar a clínica do feminino em nossos espaços de estudos psicanalíticos e, principalmente, por intervir em tal realidade através do campo clínico, endereçando nosso desejo de escuta a mulheres que, além da situação de violência, enfrentam a vulnerabilidade social. Assim, coerentes com nossa responsabilidade para com a cultura e com a cidade onde nosso trabalho se inscreve, em 2019 decidimos nos constituir enquanto equipe clínica. Primeiramente nos organizamos como um coletivo de psicanalistas, e passamos a sustentar um espaço de atendimento, resultado de nossa urgência em possibilitar a essas mulheres a ruptura do silêncio e da invisibilidade na qual elas encontram-se isoladas. Isto porque entendemos que nada fazer ou nada propor a respeito seria o equivalente a colaborar com a indiferença social, que não deixa de ser uma forma de violência. São esses os fundamentos de nossa escolha ética por praticar uma psicanálise que seja feminista, antirracista e decolonial.
